No Bracarense, o chope veio fácil. As histórias, nem tanto.
A primeira interação do Bartrimonnio Carioca com o Bracarense não poderia ter sido menos promissora.: no contato prévio pelo Instagram, apresentamos o propósito da visita: conhecer um pouco das histórias do bar, entender o que o tornou tão especial e, se possível, conversar alguns minutos com alguém da casa que pudesse compartilhar essas memórias conosco. A resposta veio curta, seca e objetiva: “Não trabalhamos com reservas.” Bom… reserva não era exatamente o que estávamos pedindo. Mas tudo bem. O Bartrimonnio não desiste fácil.
Mesmo com esse banho de água fria, mantivemos a visita e, na chegada, encontramos o Bracarense lotado. Foi preciso conquistar território aos poucos: primeiro um espaço no balcão, depois uma mesa bistrô, em pé mesmo na calçada. E, se a recepção institucional não tinha sido das mais calorosas, pelo menos o chope tratou de melhorar o ambiente. E que chope! Os sanduíches de pernil e de carne assada também não deixaram por menos. Impecáveis.
Na conversa com alguns frequentadores, porém, apareceu uma curiosa unanimidade: o Bracarense já teria sido melhor. Segundo eles, a qualidade teria caído bastante nos últimos anos, enquanto a fama do estabelecimento cresceu na direção contrária. E, com ela, também teria mudado o perfil do público. Mas apesar disso, ainda surgiram lembranças curiosas. Um deles, frequentador das antigas, contou uma história que ajuda a explicar a singularidade daquele lugar. Era comum a turma levar suas próprias cadeiras de praia para sentar na calçada. Alguns, mais prevenidos, deixavam suas cadeiras guardadas no próprio bar para garantir o lugar na próxima visita. A tradição das cadeiras de praia espalhadas pelas calçadas dos bares cariocas hoje é quase uma instituição da boemia, mas há quem diga que ela nasceu justamente ali, no Bracarense. E não é apenas memória de frequentador: registros históricos do bar também relatam essa curiosa tradição.
Da parte da gerência, nenhuma história para contar. Nenhum gerente apareceu para conversar conosco, mantendo-se, de certa forma, a infeliz coerência com a primeira interação pelo Instagram.
Mas o Bartrimonnio não costuma voltar para casa de mãos vazias. Fomos atrás.
E encontramos Dirceu Esteves, tirador de chope do Bracarense há nada menos que 43 anos. Quatro décadas e três anos atrás do balcão, fazendo exatamente aquilo que sempre fez: tirando chope. Dirceu nos recebeu com boa vontade e conversou conosco sem sequer interromper seu trabalho. Tímido e econômico nas palavras, ia respondendo às perguntas que fazíamos, sem necessariamente puxar novas histórias. Mas bastou cavar um pouco para aparecerem personagens que ajudam a explicar a importância que o Bracarense teve na história boêmia carioca. E aí surgiu Tom Jobim. Dirceu conta que o maestro costumava aparecer às quintas-feiras para buscar sua adorada dobradinha. Tomava um chope e depois voltava para o Bar Plataforma, no Leblon, que ainda funcionava naquela época. Mas havia um detalhe: Tom gostava tanto da dobradinha do Bracarense que levava a iguaria para comer no Plataforma. Perguntamos a Dirceu se isso não dava algum problema. A resposta foi simples: “Era o cara. O Tom era o Tom. Quem encrencaria com ele?” Justo. Paulo Mendes Campos também fazia parte da freguesia famosa. João Ubaldo Ribeiro, idem.
Mesmo não tendo obtido muitas informações "em campo", não se pode deixar de citar personagens como Alaíde e Chico, dois nomes que ajudaram a transformar o bar em referência nacional, conforme pesquisas realizadas. Ela, mineira, comandava a cozinha e ficou famosa especialmente pelo bolinho de aipim recheado com camarão e catupiry. Ele, cearense, tornou-se um dos garçons mais carismáticos da boemia carioca. Depois de cerca de 14 anos no Bracarense, os dois partiram para uma aventura própria e, em 2009, abriram o Chico & Alaíde, na Rua Dias Ferreira, no Leblon. A casa rapidamente virou outro fenômeno da gastronomia carioca, com Alaíde criando novos petiscos e Chico mantendo o estilo que o havia consagrado. A sociedade durou quase uma década. Quando o Chico & Alaíde fechou, em 2018, os caminhos dos dois se separaram: Alaíde foi para Belo Horizonte, onde abriu o Botequim da Alaíde, enquanto Chico voltou ao Rio e passou a trabalhar no Combinado Carioca, no Humaitá. Ou seja: se o Bracarense perdeu dois de seus personagens mais emblemáticos, a dupla tratou de levar um pedaço daquela história para outros balcões.
Até a chopeira do Bracarense merece um capítulo à parte. É elétrica e também trabalha com gelo, tirando chope claro e escuro. São duas torneiras: uma convencional e outra de cobre, utilizada para a formação do creme, no sistema de torneira belga. E há uma curiosidade: aquela torneira tem, pelo menos, o mesmo tempo de casa que Dirceu. Talvez até tenha até a mesma idade do próprio Bracarense.
No fim das contas, cumprimos mais uma missão.
O Bracarense foi visitado, o chope foi provado, os sanduíches foram devidamente avaliados e algumas histórias foram resgatadas.
Ficou, porém, aquela sensação de que havia muito mais a descobrir. Um bar com tanta fama, tantos personagens e tantas décadas de história tinha potencial para nos entregar uma verdadeira aula de boemia carioca. Mas, dessa vez, as histórias não vieram até nós. Tivemos que ir buscá-las na raça, como manda a cartilha do Bartrimonnio Carioca.
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