Casa Clipper — um patrimônio de 80 anos com alma rubro-negra

A visita à Casa Clipper, uma das caçulinhas entre os estabelecimentos reconhecidos como Patrimônio Cultural Carioca, revelou uma curiosa contradição: embora o título seja recente, a casa está longe de ser novata. Fundada em 1945 por imigrantes portugueses, acumula mais de oito décadas de história e faz parte da tradição boêmia do antigo Leblon. Quem chega hoje talvez nem imagine que aquele ambiente de aparência moderna seja um bar octogenário. Não tem exatamente a cara de um boteco dos anos 1940, mas é. E talvez esteja justamente aí uma parte do charme da Casa Clipper: atravessou gerações sem precisar ficar congelada no tempo.

A primeira ironia da visita apareceu logo na recepção. Estamos falando de um tradicional reduto de flamenguistas, mas quem nos recebeu foi um botafoguense com nome de goleador: Túlio. E, como entoavam os botafoguenses nos anos 1990, podemos dizer: Túlio Maravilha, nós gostamos de você! Mesmo a contragosto, nosso anfitrião falou sobre a forte identificação da casa com a torcida Charanga Rubro-Negra, uma das pioneiras entre as torcidas organizadas do futebol brasileiro. Em dias de jogos no Maracanã, a casa vira ponto de encontro da torcida, que passa por ali para fazer o tradicional aquecimento antes de seguir para o estádio.

E Túlio e a Casa Clipper mostraram uma arma de respeito: a chopeira. O Bartrimonnio já viu muita chopeira de alta vazão, mas poucas impressionaram tanto. O copo é praticamente tomado pelo chope em questão de pouquíssimos segundos. O segredo para manter essa velocidade sem abrir mão da temperatura está no sistema de refrigeração. A serpentina tem impressionantes 120 metros, divididos igualmente entre os dois lados, enquanto o barril fica na câmara fria e a própria torre também é mantida cheia de gelo, enquanto os copos esperam também mergulhados em água gelada para receberem o líquido precioso. Tudo pensado para garantir aquilo que o carioca espera de um bom chope: estupidamente gelado.

E, claro, não poderíamos sair de um reduto desses sem provar o petisco mais famoso da casa: o sanduíche de pernil. E a fama faz jus ao produto , excelente, daqueles que ajudam a entender por que determinados bares atravessam décadas e continuam atraindo gerações de frequentadores.

Entre futebol, chope gelado, pernil e histórias de boemia, a Casa Clipper mostra que patrimônio cultural não precisa necessariamente ter aparência antiga. Às vezes, a história está ali, escondida atrás de uma fachada moderna, esperando apenas que alguém pare para perguntar: há quanto tempo vocês estão aqui?

E no caso da Casa Clipper, a resposta é: desde 1945.

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