Bar Urca: muito além da mureta mais famosa do Rio

Nossa visita ao Bar Urca começou antes mesmo de chegarmos ao botequim. Na tradicional pré-visita do Bartrimonnio Carioca, fizemos uma parada na feira da Praça Tenente Gil Guilherme, uma das boas surpresas do bairro da Urca. Além da excelente feira livre, o local abriga uma animada roda de samba e chorinho que, por si só, já valeria o passeio.

Desde o primeiro contato, o Bar Urca mostrou por que é uma referência não apenas na gastronomia, mas também na forma de receber seus visitantes. Ao manifestarmos nosso interesse em conhecer a casa, fomos prontamente recebidos com boas-vindas e orientados a procurar a gerente Camila, que seria nossa anfitriã. Organização exemplar.

Já no local, Camila nos recebeu com enorme simpatia e conduziu uma verdadeira aula sobre a história e as particularidades da casa. Conhecemos os dois universos que convivem no mesmo endereço: o bar, no térreo, com seu atendimento simples e eficiente, onde os clientes retiram suas fichas no caixa e atravessam a rua para apreciar seus petiscos e bebidas na famosa mureta da Urca; e o restaurante, localizado no andar superior, com ambiente mais sofisticado, painéis históricos, caricaturas das três gerações que administraram o estabelecimento e inúmeras dedicatórias deixadas por personalidades brasileiras e internacionais. Entre elas, destaca-se uma da banda Metallica.

O bate-papo com Camila e com Manuel, funcionário mais antigo da casa, foi um dos pontos altos da visita. Ela, com oito anos de Bar Urca; ele, com impressionantes vinte anos de dedicação ao estabelecimento. Entre histórias e causos, aprendemos que a relação do Bar Urca com personalidades famosas vem de longa data, favorecida pela proximidade com a antiga TV Tupi e o lendário Cassino da Urca.

Ainda hoje, muitos artistas e jornalistas frequentam o local. Alguns preferem a simplicidade da mureta ao conforto do restaurante. Pedro Bial, por exemplo, é conhecido por apreciar as tradicionais sardinhas da casa. Em meio à conversa, não faltaram brincadeiras sobre a famosa frase “São Paulo não tem isso”, dirigidas à Camila, paulista de nascimento e carioca de coração. Tudo em clima de absoluta descontração. E, segundo ela mesma, a provocação procede.

Outra história curiosa veio do jornalista Reginaldo Leme, que certa vez afirmou estar sentado na mureta do Rio Tâmisa, em Londres, quando concluiu que, por mais bonita que fosse a vista inglesa, nada se comparava à experiência da mureta da Urca.

A origem do estabelecimento remonta a uma culinária de inspiração alemã. Como ocorreu com outros tradicionais bares cariocas de origem germânica, como o Bar Luiz, o Bar Brasil e o Bar Lagoa, seus proprietários enfrentaram dificuldades durante a Segunda Guerra Mundial. Ao longo das décadas, o negócio mudou de mãos até chegar, em 1972, à família Gomes.

Foi sob o comando de Armando Gomes que o Bar Urca passou por uma transformação importante. Até então existia apenas o bar do térreo; o espaço superior funcionava como depósito de cerveja. Foi ele quem criou o restaurante e começou a consolidar o costume que hoje se tornou símbolo da cidade: sentar-se na mureta para beber, petiscar e contemplar a Baía de Guanabara.

O romantismo do local ajudou a render diversos prêmios ao Bar Urca como um dos melhores lugares para encontros a dois. E não é difícil entender por quê. O estabelecimento acumula histórias de casais que se conheceram ali, fizeram pedidos de casamento, ensaios fotográficos e até festas de casamento tendo a mureta como cenário.

A figura de Armando Gomes é inseparável da história do bar. Começou cedo atrás do balcão e permaneceu trabalhando diariamente até os 96 anos de idade. Seu amor pelo estabelecimento era evidente. Em reconhecimento à sua contribuição para a cultura carioca, recebeu os títulos de Cidadão Carioca e Cidadão Fluminense, as medalhas Pedro Ernesto e Tiradentes. O Bar Urca, por sua vez, tornou-se patrimônio cultural do município e do estado do Rio de Janeiro.

Uma das lembranças mais bonitas é a árvore plantada por Seu Gomes em frente ao bar. Aos 91 anos, em 2007, ele mesmo participou do plantio. Hoje, a árvore segue oferecendo sombra aos frequentadores e ajudando a contar a história do lugar.

Falamos também sobre um vizinho ilustre: Roberto Carlos. Embora ele seja uma figura reclusa e não hajam registros de aparições do Rei no estabelecimento, ele é cliente assíduo do serviço de delivery. Portanto, podemos afirmar sem medo de errar: o Bar Urca já alimentou o Rei. Outro vizinho famoso e frequentador conhecido é o cantor Lenine, que costuma aparecer acompanhado dos filhos.

Durante a visita, adquirimos o livro “100 Anos de Botequim”, uma obra fundamental para conhecer a trajetória de Seu Gomes e do Bar Urca. O mais interessante é que as entrevistas e informações foram reunidas até poucos dias antes de seu falecimento, registrando praticamente toda a sua vida. Como lembrança da visita, recebemos também um belo copo personalizado da casa. E tivemos a oportunidade de provar a cerveja própria do Bar Urca, aprovada por todos.

A conversa com o atual gestor, Armando Gomes Filho, foi igualmente enriquecedora. Hoje ele administra o negócio ao lado de seu filho, Armando Gomes Neto. E a quarta geração já começa a aparecer: o Armando Gomes Bisneto, com apenas dez anos de idade, já acompanha de perto a rotina da casa. Pelo visto, essa história ainda terá muitos capítulos.

Armando Filho relembrou que o estabelecimento já se chamou Bar Tabajaras, em referência ao antigo Clube Tabajaras, dedicado à pesca, que funcionava nas proximidades. O nome permanece vivo no edifício vizinho. Ainda assim, convenhamos: o nome Bar Urca parece ter nascido para aquele lugar.

Ele também destacou que a tradição de consumir bebidas e petiscos na mureta é uma marca registrada do Bar Urca, e que Armando Gomes Neto teve papel importante na popularização desse hábito que hoje é praticamente um cartão-postal da cidade.

Outra curiosidade interessante remete aos tempos em que havia uma venda de peixes ao lado do estabelecimento. Os pescadores desembarcavam e comercializavam ali mesmo suas capturas. Seu Gomes frequentemente atendia telefonemas e informava aos clientes quais espécies estavam disponíveis naquele dia. O local também era ponto de encontro dos motoristas das linhas de ônibus que encerravam seu trajeto em frente ao bar. Eram outros tempos, com outros costumes e outras regras. Se alguém tomava uma cervejinha antes de voltar ao volante? Preferimos acreditar que não…

Por fim, descobrimos uma tradição especial: todos os anos, no dia 8 de maio, data que marca simultaneamente o aniversário do Bar Urca e de Seu Gomes, a casa promove uma noite de fado em homenagem às origens portuguesas da família.

Foi uma visita memorável. Mais do que conhecer um dos bares mais famosos do Rio de Janeiro, tivemos a oportunidade de mergulhar em histórias de família, de trabalho, de amizade e de amor pela cidade. O Bar Urca é muito mais do que sua famosa mureta. É um pedaço vivo da história carioca.



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