Bar Varnhagen: memória, bolinhos e o mistério da pipa sem papel
O Bartrimonnio Carioca cumpriu mais um importante capítulo de sua caminhada botequeira ao visitar o tradicional Bar Varnhagen, um verdadeiro boteco raiz da Tijuca, sem firulas gourmetizadas e tocado com enorme carinho pelos irmãos Cidália e Antonio.
Na mesa, embora com ótimas opções de almoço, o grupo optou por petiscar os excelentes pastéis de porco e carne, além dos também excelentes bolinhos de feijoada, de bacalhau e de carne, daqueles que ajudam a explicar porque certos bares atravessam gerações.
Mas talvez o grande prato do dia tenha sido mesmo a conversa com dona Cidália, que contou a emocionante história do bar, misturada à trajetória de sua própria família.
Tudo começou com o tio-avô, fundador do estabelecimento, que chamou o pai de Cidália ainda adolescente lá em Portugal, enviando uma carta de trabalho para viabilizar sua vinda ao Brasil. Solteiro, ele topou o desafio e passou a trabalhar e morar no próprio bar, dormindo num colchonete improvisado pelos cantos da casa.
Depois de um ano, casou-se por correspondência com dona Natalina, namorada de infância que ficara em Portugal. Ela atravessou o oceano na última viagem do navio Vera Cruz, chegando ao Rio “sem uma panela pra ferver leite”, como relembrou Cidália. Vieram na base da coragem e acreditando no trabalho duro.
Dona Natalina criou filhos, lavou, passou, entregou roupas e ainda desenvolveu receitas que se tornariam símbolos do bar e da própria cultura carioca, como a famosa patanisca, infelizmente fora do cardápio atualmente. Seu pai, trabalhou muito e seus poucos momentos de diversão eram o jogo de sueca na praça em frente ao bar. Com muito esforço, a família conseguiu comprar a parte do tio e consolidar o Bar Varnhagen como patrimônio afetivo da Tijuca.
Outra curiosidade marcante é o apelido de “bar dos passarinhos”, herdado dos tempos em que acontecia na praça em frente a tradicional feira de pássaros. Ainda hoje resistem alguns ganchos nas paredes, usados antigamente como verdadeiro “estacionamento de gaiolas”. As gaiolas não são mais estacionadas dentro do bar em função de atualizações de Normas de vigilância sanitária. Mas ainda que em menor número e restringindo-se aos mais antigos, restaram felizmente apenas os criadores legalizados, que ainda frequentam o bar, mesmo que a prática venha perdendo força com o passar do tempo e das gerações.
Sobre o lendário MAU (Movimento Artístico Universitário), que foi um coletivo cultural brasileiro influente nos anos 1960 e 1970 e era sediado ali na vizinhança, com expoentes como Gonzaguinha, Ivan Lins e Aldir Blanc, Cidália disse ter ouvido histórias sobre a possível presença de artistas no bar, mas sem saber de muitos detalhes. O mistério, aliás, parece combinar com outro enigma do salão: o “esqueleto” de uma pipa, apenas com varetas e linha, sem papel nem rabiola, exposto até hoje sem que ninguém saiba explicar exatamente sua origem ou significado.
Entre espelhos antigos, azulejos estimados com carinho e memórias preservadas com orgulho, Cidália demonstrou enorme emoção pelo reconhecimento do Bar Varnhagen como patrimônio cultural carioca, principalmente pela memória de dona Natalina.
E assim o Bartrimonnio Carioca segue sua missão: beber história, petiscar memória e brindar aqueles que mantêm viva a alma dos botequins do Rio.

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