Bar Opus: onde um olhar pede chope e 58 anos de história chegam à mesa
Depois de uma primeira tentativa adiada pelos ventos do Rio, finalmente chegou o dia de o Bartrimonnio Carioca desembarcar no Bar Opus.
E se existe uma palavra que combina com o Opus, talvez seja harmonia. Harmonia entre os frequentadores, que se conhecem e se cumprimentam como velhos amigos. E, principalmente, harmonia entre o cliente e o chope, numa relação tão bem estabelecida que nem é preciso pedir.
No Opus, o tirador de chope é o Cabeça. E a chopeira, toda revestida de gelo, já está ali há cerca de 40 anos, testemunhando a história da casa. O ritual é quase telepático: o copo começa a esvaziar, o cliente olha para o Cabeça, o Cabeça olha de volta... e pronto. Um novo chope aparece. Sem pedido, sem aceno, sem aplicativo. Apenas a experiência de quem conhece o balcão.
Mas há uma exigência: chope tem que vir perfeito. Nada de bolinha, nada de sujeira. A limpeza é impecável e o cuidado com o serviço é daqueles que explicam por que uma casa consegue atravessar décadas mantendo sua freguesia.
E, por falar em tradição, o Opus tem nada menos que 58 anos de atividade.
Em nossa conversa com Fernando, proprietário da casa, ficou evidente o carinho que ele tem pelo bar e pelo reconhecimento como Patrimônio Cultural Carioca. O Opus é um dos caçulas dessa lista, mas já é um clássico do Centro do Rio, daqueles lugares que fazem parte da memória afetiva de muita gente. Fernando assumiu o bar em 2013, quando o antigo proprietário, Sr. Gilberto, já não atuava mais diretamente na casa, que estava sob administração da filha e do genro. Depois, o bar foi vendido para a Confeitaria Colombo e Fernando ficou pouco mais de um ano afastado. Até que o pessoal da Colombo o chamou de volta. Ele então recomprou o Opus junto com sua sócia, Miriam.
E voltou para onde, aparentemente, nunca deveria ter saído. Uma das estrelas da casa é o famoso sanduíche de pernil, que já existia antes mesmo da chegada de Fernando. E a produção é respeitável: são cerca de duas toneladas de pernil por mês. Haja porco!
E não para por aí. O cardápio ainda tem sanduíche de carne assada, tender e o curioso Pinheirinho, criado em homenagem a um cliente assíduo e diário chamado Pinheiro. O Pinheirinho tem uma característica que combina perfeitamente com o espírito do Opus: é um aperitivo para compartilhar. Porém há uma polêmica no ar em relação à quantidade de pedaços a serem compartilhados. O próprio Pinheiro, que estava lá, disse que são 8 pedaços. Outro frequentador disse que são 7 pedaços. Os que pedimos vieram partidos em 7 pedaços. O importante é que nesse boteco carioca, bom mesmo é pedir uma coisa e todo mundo provar.
A atmosfera da casa também chama atenção. Fernando conhece os frequentadores pelo nome e o relacionamento entre balcão, proprietário e clientes tem aquela informalidade respeitosa de uma grande família. Uma família muito bem-educada, diga-se de passagem.
E é justamente aí que está uma das riquezas do Opus: não parece que você está apenas entrando em um bar. Você está entrando em uma comunidade que existe há décadas.
Claro que uma casa com 58 anos também acumula seu folclore. Um dos capítulos é a famosa escada que leva ao banheiro. A inclinação está longe dos padrões atuais de acessibilidade da ABNT e transforma o trajeto em uma espécie de pequena prova de coragem. A história rende risadas, mas Fernando reconhece que a questão precisa ser enfrentada e que o bar deverá passar por uma reforma, e será incluída a adequação da escada às condições de acessibilidade.
Durante nossa conversa, o frequentador Alex também trouxe algumas lembranças interessantes. Segundo ele, o Opus já teve até cerveja própria, que acabou sendo descontinuada depois que a empresa fornecedora fechou durante a pandemia. Quem sabe um dia ela volta? Fernando, porém, fez uma ressalva importante: o Opus não é um bar gourmet. Se a cerveja retornar, precisa voltar com preço compatível com a proposta da casa. Afinal, tradição também é saber não complicar aquilo que funciona.
Alex ainda lembrou de outra figura folclórica ligada à história do Rio: o famoso Garoto das Flores. Fernando não chegou a ter contato com ele, mas essa história já havia chegado ao Bartrimonnio Carioca por outro caminho: em conversa com Guilherme, um dos proprietários do Cardosão, em Laranjeiras, que é filho do próprio Garoto das Flores.
Mais uma daquelas histórias que mostram como os botecos cariocas formam uma enorme rede de memórias, personagens e coincidências.
No final, saímos do Opus com a sensação de que os seus 58 anos não estão apenas registrados na idade da casa. Eles estão nos gestos, nos nomes dos clientes, nas receitas, no balcão, na chopeira coberta de gelo, nas histórias contadas por quem frequenta e, principalmente, naquele olhar que diz tudo: "Está acabando…"
E antes mesmo de qualquer pedido, o chope já está chegando.
Porque no Opus, depois de 58 anos, algumas coisas simplesmente não precisam ser ditas.
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