Armazém Cardosão – memórias guardadas além do antigo armazém

Após a excelente visita ao Baixo Gago, o grupo partiu para o Armazém Cardosão. Primeira decisão, considerando a distância e a ladeira a subir: ir a pé ou utilizar algum sistema de transporte por carro?

Parte foi de transporte por aplicativos, outra encarou a subida a pé, inclusive o Diogo, que heroicamente subiu com seu bebê Hugo no carrinho, sem usufruir do revezamento combinado com os amigos, que se distraíram e cortaram caminho pelas escadarias. Para quem desejar fazer a mesma caminhada, leva em torno de meia hora caminhando sem muita pressa. Vale a caminhada. Quem não estiver com alguma lesão ou limitação física consegue subir na boa, aproveitar uma parada para fotos no mirante da Cardoso Junior e já inicia com algum débito calórico para repor no bar.

Chegando lá, reencontramos o local onde a ideia foi concebida, como contamos em Onde nasceu a ideia do Projeto Bartrimônnio Carioca. O bar é um digno filho dos antigos armazéns, que foram os precursores dos botecos como conhecemos hoje, mantendo inclusive Armazém em seu nome. Quanto à localização, se alguém cair de paraquedas no local e não souber em que bairro está, dificilmente acreditará que está em Laranjeiras e não em algum bairro bucólico do subúrbio carioca.

Tivemos contato com dois dos sócios em momentos diferentes, com o Rodrigo logo que chegamos, e com o Guilherme já no momento de nossa partida.

A “entrevista” com Rodrigo se deu ao longo de sua jornada de trabalho, onde deixamos claro que a ideia não era atrapalhá-lo, até porque não agendamos nada, gostamos de conhecer um dia comum do bar. Então a conversa se deu entre suas diversas atividades, inclusive ajudando a manobrar veículos na estreita rua Aparício Borges, a rua da esquina da Cardoso Júnior, onde fica o bar. Ele demonstrou grande preocupação em não incomodar ou em minimizar incômodos à sua vizinhança, muito corretamente por sinal.

Contou a história da aquisição do Armazém Cardosão, concretizada pouco antes do estouro da pandemia da COVID-19, o que acabou sendo mais um grande desafio para eles. Porém, o fato de contar com muitas áreas externas abertas, ajudou a ser um dos mais procurados logo na retomada dos bares, ao fim da pandemia. Hoje o bar fica bastante cheio, gerando preocupação do proprietário para não causar confusão no entorno, chegando até a reduzir divulgação de eventos por esse motivo. O bar já era Patrimônio Cultural Carioca quando foi por eles adquirido, mas ele credita a honraria à fama da sua feijoada e à sua tradição desde os tempos em que se chamava Armazém Mundo Novo. Esclareceu ainda que há três “Cardosões” diferentes, o que gera alguma confusão entre visitantes. O Armazém Cardosão, o bar do qual é sócio, o bloco carnavalesco Cardosão (cuja fama acabou por rebatizar o Armazém Mundo Novo para Armazém Cardosão nos anos 1970) e ainda há a quadra Cardosão, na parte de cima da Rua Aparício Borges, onde são promovidos eventos sem qualquer relação com o bar.

Após a conversa com Rodrigo, seguimos na “difícil” tarefa de beliscar os ótimos petiscos, beber cerveja gelada e conversar com os amigos enquanto esperávamos o excelente grupo Flor do Samba começar a tocar. Durante nossa permanência fomos abordados por várias pessoas atraídas por nossas camisas, as quais cometemos o lapso de não perguntar os nomes (ou perguntamos e o álcool ajudou a esquecer), dentre eles uma jornalista que atuava na antiga TV Educativa e tem muito interesse no assunto, além de um ex-Secretário de Turismo do Rio de Janeiro, que achou muito bacana a ideia da camisa com a plaquinha de patrimônio, pediu para bater fotos com objetivo de enviar para o Washington Fajardo, o criador das mesmas. Muito bacana!

Já no momento em que estávamos indo embora, outra abordagem, desta vez pela esposa do Guilherme, o outro sócio do Armazém Cardosão. Ela nos levou até ele e batemos um papo descontraído e ouvimos outras curiosidades interessantíssimas, ficamos com a impressão de que não captamos nem 5% do que ele tem para contar. Se prontificou a agendarmos um momento só para conversamos (e bebermos juntos). Será agendado em breve. Seguem algumas das histórias:

- Ele é nascido e criado em Laranjeiras, e frequentava o Armazém desde a infância com os pais;

- Se formou em educação física, porém se apaixonou por gerir botecos desde que seu pai adquiriu o antigo Restaurante Garoto das Flores, no mercado das flores, centro do Rio de Janeiro. Ainda cursando a faculdade, foi socorrer seu pai na gestão e nunca mais saiu do ramo. Detalhe: o restaurante é o local onde foi fundada a famosa Confraria do Garoto;

- De lá para cá, já tocou diversos empreendimentos, como o Coordenadas Bar (e a festa Coordenadas), estas já em sociedade com o Rodrigo, além da casa Rosa, na Rua Alice, ali mesmo em Laranjeiras. A Casa Rosa foi um prostíbulo de luxo famoso no Rio de Janeiro, e na gestão do Guilherme passou a ser um local de eventos de rock, samba e música eletrônica. Inclusive um dos membros do Bartrimônnio Carioca (que jamais divulgaremos o nome) afirmou já ter frequentado muito a casa, não ficando claro se nos tempos do prostíbulo e ou nos tempos dos eventos musicais;

- Lembrou que na região do Armazém Cardosão havia a fábrica de tecidos Aliança, e os operários que moravam em seu entorno criaram ranchos (os precursores dos blocos carnavalescos), como o “Arrepiados” e “União da Aliança”. O filho de um dos operários era um tal de Agenor, que viria a ser o grande Cartola, um dos maiores nomes da música brasileira. Fundador da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, sugeriu as cores verde e rosa, que eram as cores do time de futebol que jogava na infância;

- Brincou com o fato de que o local realmente não parece ficar no bairro de Laranjeiras, inclusive citou já ter presenciado clientes que após tomar umas, juravam estar em Santa Teresa;

- Guilherme afirmou sempre ter o sonho de ser dono do Armazém Cardosão, por sua ligação histórica com a região. Acompanhando as dificuldades da antiga gestão, sabia que em algum momento a oportunidade surgiria. E surgiu em Dezembro de 2019, quando viu a placa “passo o ponto”. Ele e seu sócio levaram três meses negociando a aquisição do ponto, e assim que fecharam negócio, estourou a pandemia, como já contado pelo Rodrigo. Mas eles aproveitaram para implementar o delivery e realizar as obras de melhoria, com o cuidado de não descaracterizar o ambiente. Contou inclusive que mantiveram certa marca no piso que traça o caminho que o antigo proprietário fazia andando de um lado para o outro quando estava nervoso com algo!

Enfim, excelente visita, recomendadíssimo o Armazém Cardosão!




Presentes:

Fátima Mafra e Lucena

Aline, Hugo e Diogo Madeira

Antonio Velho

Mosquito e Nat Gonçalves

Debora, Gustavo e Gui Gui

Jane e Luciano Morateli


Nota final: alguns guerreiros ainda foram tomar a tradicional saideira em outro bar, descemos a ladeira e a noite fechou no digno bar Sonho Lindo de Laranjeiras, para o qual desejamos vida longa!

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