Entre o botequim e a tradição: uma visita extraordinária ao Adegão Português
A visita ao Adegão Português foi classificada como extraordinária, ainda que paire uma dúvida quase filosófica: afinal, estamos diante de um botequim ou de um legítimo negócio tradicional? No site da prefeitura, ele figura no circuito dos botequins; na própria placa de Patrimônio Carioca, assume-se como parte dos negócios tradicionais. Cá entre nós, a experiência resolve a questão: trata-se, sem rodeios, de um ótimo restaurante e não de um botequim.
A casa impressiona logo de saída pelo ambiente muito bem decorado, daqueles que misturam elegância com memória, convidando o cliente a permanecer mais do que o planejado. O atendimento, por sua vez, foi um capítulo à parte. Fomos conduzidos pelo garçom Araujo, de uma atenção rara: não apenas preciso nos pedidos, mas vigilante no melhor sentido, daqueles que antecipam necessidades. Um garfo caiu ao chão e, em questão de segundos, outro já estava à mesa. Profissional exemplar.
Foi Araujo quem nos apresentou ao personagem mais marcante da visita: Robertinho, o funcionário mais antigo da casa. Mais do que isso, uma verdadeira instituição viva do Adegão. Na casa desde 1982, começou como copeiro e hoje integra a gerência, além de atuar como sommelier de vinhos. Foi ele quem nos guiou, com orgulho, pela bela adega e, principalmente, pelas histórias que fazem do restaurante um patrimônio afetivo.
Robertinho conheceu os fundadores, os espanhóis Manolo e Francisco Iglesias, e nos contou que o Adegão, inaugurado em 1964 (completando agora 62 anos, em 06 de abril), nasceu como uma churrascaria com um luxo à época: ar-condicionado, raridade nos anos 60. Trouxe ainda uma curiosidade saborosa: Manolo é pai de Marcelo, da famosa rede “Boteco do Manolo”, batizada em sua homenagem. Hoje, no entanto, o Adegão segue sob a administração dos descendentes de Francisco Iglesias.
As histórias de clientes ilustres ajudam a entender o espírito da casa. Eurico Miranda, por exemplo, tinha seu ritual: torrada com manteiga, azeitonas e Coca-Cola. Certa vez, Robertinho se antecipou e levou o pedido sem ser solicitado, foi prontamente repreendido: “não te pedi nada”. Recolheu tudo, contrariado. Minutos depois, veio a pergunta: “cadê minha torrada?”. Com paciência, trouxe novamente. Clássico.
Carlinhos Maracanã, inicialmente fiel ao frango, foi apresentado por Robertinho ao polvo e acabou convertido. Já Bira Peixe permanece eternizado com um peixe de louça na parede. E o médico Fernando Carneiro Cunha ganhou homenagem pelos seus 40 anos de frequência. O Adegão cultiva seus clientes como parte da própria história e isso se vê nas paredes e se sente no ambiente.
À mesa, o Adegão não decepciona: o bacalhau à lagareiro estava excelente, acompanhado de sobremesas portuguesas à altura da tradição da casa. Uma experiência gastronômica sólida, sem atalhos.
O único porém, e aqui entra o espírito crítico do Bartrimonnio, ficou por conta da saideira. Em uma conta que ultrapassou os três mil reais, a cortesia limitou-se a quatro chopes para uma mesa de dez pessoas. Econômico demais para quem flerta com o circuito dos botequins, onde a generosidade é quase um mandamento.
Talvez aí resida a resposta definitiva: o Adegão Português não é, de fato, um botequim. É um negócio tradicional, com serviço impecável, história rica e cozinha de respeito, mas sem o “espírito botequim” que transforma uma boa visita em uma experiência inesquecível até o último gole.

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