Botequim do Joia - uma joia encravada no caos urbano
A ida até o Botequim do Joia infelizmente começa com uma certa decepção. A apenas duas quadras dos trilhos do moderno VLT do Rio de Janeiro, o entorno escancara o abandono do centro da cidade: uma região tomada por decrépitos, cenário que infelizmente não dá pra fingir que não existe. Alô, Prefeitura do Rio!
Mas basta atravessar essa barreira urbana para o clima mudar completamente. Ao chegar ao Joia, o contraste é imediato. Um botequim clássico, de ambiente acolhedor e decoração impecável, daqueles que abraçam a gente. Rolava um samba ao vivo simplesmente sensacional, comida excelente e honesta. O paio com feijão fez a alegria geral, e o chope IPA artesanal, gelado e muito bem tirado, coroou a experiência. Ficamos sabendo que o samba de chama "samba do aposentado", e que a casa faz diversos eventos musicais para esse público, tendo o "bolero do aposentado" e também o genial "choro do aposentado", num belo duplo sentido.
Como o espaço é pequeno e não havia mesas suficientes para acomodar todo o grupo, improvisamos um revezamento boêmio: enquanto uns comiam lá dentro, outros bebiam do lado de fora, em mesas bistrô na rua. Foi numa dessas idas e vindas que fomos abordados pelo Roberto, administrador da casa, curioso com as camisas do Bartrimonnio Carioca.
Simpático e solícito, ele nos apresentou a alguns membros da “diretoria” do Joia, como Márcio e Tonhão, personagens que abriram a porteira para uma sucessão de histórias deliciosas.
Eles nos contaram um resumo da trajetória do bar, fundado originalmente como Café e Bar Rio Paiva. Anos depois, passou a ser administrado pelo Sr. Jóia, filho do dono e frequentador do estabelecimento desde os 16 anos. Com o falecimento de seu pai, assumiu definitivamente o comando nos anos 1950, inclusive anos depois rebatizando o bar com o nome pelo qual é conhecido até hoje.
Ao seu lado estava dona Cecília, primeira esposa, mineira e cozinheira de mão cheia, responsável, inclusive, pela clássica mistura de paio com feijão que segue fazendo sucesso até hoje. Dona Cecília também era famosa pelo temperamento forte, com relatos de discussões com clientes que terminavam, eventualmente, com pratos voando. Tocou o bar junto com seu Jóia até falecer, em 1980.
Mais tarde, seu Jóia casou-se com dona Alayde, hoje sua viúva, após a partida dele em 2007. Criativo e irreverente, seu Jóia sempre inventava formas de animar o botequim: criou o famoso jogo da barata, o concurso do “molequinho do bar” e a lendária mesa da diretoria, que existe até hoje e já teve sua composição renovada por gerações de “diretores”.
Essa diretoria, aliás, foi fundamental para a sobrevivência do bar, ajudando financeiramente tanto após a morte do seu Jóia, reformando a casa, quanto durante a pandemia da Covid. Seguraram a onda por muito tempo, até a contratação do Roberto, administrador profissional que hoje toca o negócio.
Entre um chope e outro, surgiram histórias impagáveis: os mascotes que já moraram no bar, como o papagaio Irajá e o cachorro Rolph, ou o dia em que foi preciso reparar o fogão pesadíssimo e o técnico contratado foi abandonado pela própria equipe, só retornando minutos depois com uma nova “força-tarefa” improvisada: meia dúzia de guerreiros cracudos que resolveram o problema na raça. Ou a história dos amigos que, a pedido de dona Alayde (que mora em cima do botequim), consertaram seu chuveiro elétrico e, ao final, brincaram dizendo que ela deveria tirar a roupa e tomar banho ali mesmo para testar o serviço. Quase apanharam dela. Brincadeira encerrada à base de gritos e ameaças, como manda a tradição.
Foi uma tarde de muitas risadas, boas histórias e copos cheios. Valeu cada minuto, inclusive o trabalho vespertino sacrificado. O Joia segue vivo, pulsando memória, samba e humanidade no meio do caos do centro.

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