Bar Lagoa: histórias, chopes e o mistério da placa desaparecida

Num domingo chuvoso de pré-carnaval carioca, o grupo do Bartrimonnio Carioca acabou mudando o rumo, e o balcão. A ideia inicial era visitar o Bar Urca, mas a chuva tratou de inviabilizar a tradicional cerveja na mureta. Com o tempo fechado, a escolha foi óbvia e certeira: Bar Lagoa.

Logo na chegada, a primeira surpresa (e não das boas): a ausência da placa de Patrimônio Cultural Carioca. O espanto aumentou quando descobrimos que, além de não estar afixada, nenhum funcionário, novo ou antigo, tinha qualquer lembrança de a placa um dia ter existido ali. A estranheza foi tamanha que chegamos a questionar se não havíamos errado na listagem dos bares do circuito Botequins. Esta dúvida foi rapidamente sanada: o Decreto Municipal nº 34.869/2011, da Prefeitura do Rio de Janeiro, concedeu oficialmente essa honraria ao Bar Lagoa. Por que a placa nunca apareceu? Ninguém soube explicar. Fica o mistério, que pretendemos tentar desvendar oportunamente junto ao IRPH.

Ainda nos primeiros momentos da visita, outro personagem roubou a cena: um garçom que era simplesmente “a cara” do músico Pixinguinha, curiosamente falecido a poucas quadras dali, na Igreja Nossa Senhora da Paz. A semelhança era tamanha que a conversa seria inevitável, apesar do receio inicial, alimentado pela fama de certo mau humor dos garçons da casa. Medo infundado. O “Pixinguinha”, que na verdade se chama Israel, foi de uma simpatia desarmante. Disse que ouve comentários sobre a semelhança o tempo todo, e que se sente honrado por isso. Contou ainda que o próprio cineasta do filme sobre Pixinguinha esteve almoçando ali e comentou que só não o chamou para o papel principal porque já havia fechado com Seu Jorge. Bastou o terceiro chope para Israel virar íntimo do grupo. A partir dali, o pedido era direto: “Pixinguinha, desce mais uma rodada de chopes”. Quem poderia imaginar falar uma frase dessas? Coisas que só os botecos proporcionam. 

Conversamos também com o atual gerente da casa, Jeferson, igualmente simpático, que contou um pouco da história do bar, fundado em 1934 como Bar Berlim, nome alterado durante a Segunda Guerra Mundial por revoltas populares, o bar chegou a ser apedrejado por estudantes revoltados com o bombardeio alemão contra os navios brasileiros (Bar Luiz também passou por isso). Falou do orgulho de manter, até hoje, um cardápio tradicional com forte influência da culinária alemã. Para histórias ainda mais saborosas, Jefferson indicou que conversássemos com o garçom Paiva, há mais de 43 anos na casa.

Paiva foi um capítulo à parte. Ostenta no peito um crachá que diz “desde 1982”, símbolo de um lugar que trata seus funcionários como patrimônio humano. Contou que ainda há em atividade o garçom Gomes, seis meses mais antigo que ele. Disse, sem exagero, que o Bar Lagoa é sua casa e que sente saudade do trabalho quando está de férias. Vários parentes seus já trabalharam ali, com destaque para o tio Barroso, que passou 54 anos na casa e só saiu quando os joelhos não aguentaram mais, aposentadoria forçada e sentida até hoje. Paiva garante que o “nepotismo” de sua família ficou no passado e que atualmente quem mais tem parentes na casa é o garçom Everaldo, todos gente boníssima. Ainda assim, uma suspeita de favorecimento paira no ar: no belíssimo painel da parede, que retrata os garçons e a Lagoa Rodrigo de Freitas, todos aparecem carregando um chope, exceto Paiva, que carrega dois. Coincidência ou benefício pelo sobrenome, já que um dos autores do painel é Miguel Paiva? A acusação foi feita em tom de brincadeira, claro. O painel, assinado também por Aroeira e Gabriel Souza, é uma obra à parte: além dos garçons, alguns vivos e outros já falecidos, retrata a Lagoa, seus frequentadores, atletas, pets e até o Cristo Redentor, estrategicamente desenhado, deixando aquele trecho da cidade na clássica “projeção do suvaco”.

Paiva também revelou a função social silenciosa dos garçons. Contou histórias de amigos que viraram casais no bar, depois se separaram, e pediam ambos a mesma coisa: “se ele (ou ela) vier aqui com alguém, me conta”. Quando a reconciliação acontecia, a novidade era anunciada aos garçons como um grande acontecimento. Outra história saborosa envolveu um figurão do Judiciário, frequentador assíduo da casa, que detestava a Lei Seca nas vésperas de eleição. Para driblar o horário, pedia caipirinhas coadas, fingindo beber limonada, e prometia: “o dia que eu tiver influência no TRE, acabo com isso”. Anos depois, galgou algum posto naquele Tribunal e cumpriu a promessa, fazendo questão de contar a novidade em primeira mão aos garçons do Bar Lagoa.

Nem só de bom humor vive a casa. A fama de rabugentos tem lastro histórico. "Pixinguinha" contou o caso de um cliente que reclamou exaltado de um prato servido errado e ouviu, sem cerimônia: “come esse mesmo, que tá uma delícia”.

O ambiente do bar é um capítulo à parte: decoração clássica, objetos antigos, o grande painel e uma curiosa foto acima da porta do banheiro masculino, sendo esta uma imagem do pai do dono, como nos foi informado. Falando nele, Jeferson contou que o proprietário é Omar “Catito”, figura de trajetória inusitada: já foi dono do Estaleiro Mauá, em Niterói, do icônico restaurante La Fiorentina e também atuou na política partidária.

O Gerente Jeferson falou ainda sobre o fato de o bar ser tombado, em função do seu estilo Art-Déco. O bar é tombado, e não o prédio inteiro, porém seu tombamento o protegeu da especulação imobiliária, sabendo-se que a Lagoa é um bairro considerado nobre no Rio de Janeiro, Gerir um bar tombado, segundo Jeferson, é honra e desafio. O público “policia” cada detalhe. Qualquer mudança vira polêmica. Tentaram trocar a iluminação por LED e as críticas vieram rápidas: disseram que o bar estava parecendo uma Drogaria Pacheco, que a luz dava para ser vista do outro lado da Lagoa. Resultado: voltaram à iluminação fraca e tradicional, como manda a liturgia botequeira.

Assim terminou a tarde: muitas histórias, boas risadas, chopes bem tirados na clássica chopeira e um mistério não resolvido. O paradeiro da placa de Patrimônio Cultural Carioca segue desconhecido. O grupo espera que o desfecho seja um caso real da volta dos que não foram.




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