Do vinho ao susto e o alívio, a primeira expedição do Bartrimonnio pela Lapa, na Adega Flor de Coimbra e no Nova Capela
Quando se delineou a lista dos bares do Circuito Botequins do Patrimônio Cultural Carioca, viu-se que havia 4 deles muito próximos, na redondeza da Lapa. Definiu-se dividir a visita a essa região em duas partes.
Como o Bartrimonnio Carioca sempre preza pelo excesso, os dois primeiros bares viraram três: Adega Flor de Coimbra, Nova Capela e, pra encerrar com dignidade (e economia), o vizinho Boteco do Pedro (fora da lista de Patrimônio Cultural Carioca).
Já dando spoiler, pode-se dizer que a visita começou histórica, passando por um trauma financeiro e terminando redimida com torresmo e saideira grátis, um roteiro que resume bem o espírito do grupo.
Parte I - Adega Flor de Coimbra, o tempo não passa, só serve mais um copo
Orgulhosa de ser a mais antiga do Rio de Janeiro, a Adega Flor de Coimbra não desaponta nesse quesito: parece mesmo que o relógio parou ali por volta de 1950. A decoração é tradicional, o bolinho e o pastel de bacalhau mantem a honra da Adega, e o vinho da casa, embora modesto, cumpre seu papel de abrir conversas e soltar risadas.
Nas paredes, o belo painel de Nilton Bravo, o Michelangelo dos botecos, resiste firme, acompanhado por fotos e traços do artista Selarón, aquele mesmo da escadaria vizinha. Duas réplicas da placa de patrimônio cultural dentro, mais uma oficial do lado de fora, e o famoso aviso “proibido beijos calorosos”, que segue firme na vigilância dos excessos passionais.
O atendimento ficou por conta do Sr. Antônio, um simpático veterano com 35 anos de casa, que, embora solícito, não veio com o estoque de histórias que esperávamos. Faltou aquele “causo” antigo que sempre transforma o chope em documento histórico.
Parte II - Nova Capela, entre incêndios imaginários e contas reais
Do sossego da adega, seguimos para o Nova Capela, onde logo na porta encontramos uma placa de patrimônio com uma novidade intrigante: segundo ela, o antigo Capela teria sido destruído por incêndio.
Nossas pesquisas, porém, dizem outra coisa, que a mudança de endereço foi motivada pela urbanização da Lapa, e o antigo Capela foi destruído não por chamas, mas por tratores. Mistério à parte, fomos muito bem recebidos pelo Max e pelo Sr. João, mas as histórias antigas novamente se esconderam.
Quem também estava na casa era o lendário Sr. Caçapava, cozinheiro com 52 anos de fogão, testemunha viva da era de ouro do Nova Capela, esse sim provavelmente teria boas historias para contar. Porém, no fim do expediente, ele passou correndo e não quis conversa e, convenhamos, depois de 52 anos de batente, motivos não devem lhe faltar.
O que ninguém esperava era o verdadeiro fogo da noite: a conta, a dolorosa. Se na última visita a Copacabana citamos a passagem bíblica da transformação de água em vinho, dessa vez conhecemos não o bezerro de ouro, mas o cabrito “de ouro”. Que cabrito mais caro foi esse! Foi, sem exagero, a mais cara da história do Bartrimonnio, uma paulada tão respeitável que fez muita gente repensar a própria fé boêmia.
Parte III - Boteco do Pedro, onde a redenção vem em forma de torresmo e pastel
Para curar o trauma, o grupo se refugiou ali perto, no Boteco do Pedro, que ainda não tem placa de patrimônio, mas bem que merecia.
O dono, famoso pelo mau humor folclórico, não estava na casa, e talvez tenha sido melhor assim. No comando da noite, o Itamar, sempre eficiente, serviu torresmos crocantes e pastéis de queijo coalho com cebola roxa, uma iguaria que virou unanimidade.
A conta veio leve, menos de 15% do valor do Nova Capela, e ainda teve saideira por conta da casa.
Foi o encerramento perfeito de um dia que começou com história, passou por susto e terminou com fé restaurada no verdadeiro patrimônio carioca: o boteco honesto.


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