Cervantes: o ícone que sobrevive, ainda que retocado!
Na sequência da visita ao Galeto Sat’s em Copacabana, o Grupo Bartrimônnio Carioca caminhou alguns passos e foi ao tradicional Cervantes, para revisitar memórias e conferir de perto o estado atual de um dos ícones da boemia carioca. Porém, dessa vez, a visita deixou um gosto agridoce, aliás como todas as visitas em bares “resgatados” pelo Belmonte. Fundado em 1955 por imigrantes espanhóis, o Cervantes se notabilizou ao longo das décadas por seu ambiente acolhedor, seu chope gelado e, claro, pelo lendário sanduíche de pernil com abacaxi — combinação inusitada que virou marca registrada da casa e atravessou gerações de frequentadores. O bar se consolidou como um clássico da noite carioca, ponto de encontro de artistas, jornalistas e boêmios em busca de boa conversa e comida farta após a madrugada. Durante a pandemia de Covid-19, o Cervantes fechou suas portas, somando-se a uma triste lista de bares históricos que não resistiram à crise. A notícia do encerramento causou comoção entre os frequentadores mais fiéis e levantou preocupações sobre o desaparecimento gradual da memória boêmia da cidade. Para alívio de muitos, o bar foi posteriormente adquirido pelo Grupo Belmonte, que promoveu sua reabertura, mantendo alguns dos pratos e características originais, mas também impondo um padrão estético e operacional comum às demais casas do grupo. Logo na chegada, os visitantes notaram que o Cervantes parece ter perdido parte de sua personalidade única. O ambiente, antes caracterizado pela aura nostálgica e pelas histórias de décadas de tradição, agora lembra mais uma filial do Belmonte, com suas empadas (abertas e fechadas) sendo servidas em bandejas padronizadas. O lendário sanduíche de pernil, apesar de ainda saboroso, não tem mais o mesmo encanto de antigamente — aquele toque artesanal que o transformava em uma experiência única. Outro detalhe que decepcionou o grupo foi a ausência da icônica placa de Patrimônio Cultural Carioca, que antes ornamentava o local e atestava sua importância histórica para a cidade. Ao questionarmos sobre o paradeiro da placa, a gerente Mirian — que, apesar de simpática e solícita, demonstrou pouco conhecimento sobre as histórias e lendas do bar — explicou que, na transição de propriedade dos antigos donos para o atual proprietário, Sr. Antônio, a placa pode ter sido levada por eles. Mirian também relatou que o próprio Sr. Antônio esteve no Cervantes mais cedo naquele dia e chegou a notar o movimento do Grupo Bartrimônnio Carioca enquanto todos ainda estavam no Galeto Sat’s, logo ao lado. Curioso, perguntou à gerente sobre o que se tratava aquele grupo de entusiastas da cultura de botequim, mas, por uma coincidência de minutos, o grupo acabou não tendo a oportunidade de conversar com ele pessoalmente. Seria uma excelente oportunidade para parabenizá-lo e agradecê-lo pelo resgate a alguns bares históricos que estavam por fechar, mas também para questioná-lo sobre essa aparente descaracterização dos mesmos. Apesar da simpatia da gerente e do ainda bom sanduíche de pernil, ficou a impressão de que o Cervantes perdeu parte de sua essência original. Mesmo assim, o Grupo Bartrimônnio Carioca saiu com a certeza de que revisitar a história, mesmo que parcialmente apagada, é sempre importante para valorizar a memória afetiva dos lugares que marcaram — e ainda marcam — a boemia carioca.

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