Cachambeer – o bar que não nega a paternidade
O bar Cachambeer já não era novidade para a maioria dos membros do grupo, veteranos frequentadores do Comida di Buteco, concurso do qual o bar participa há muitos anos.
Entretanto, embora estivéssemos novamente em período de Comida di Buteco, o objetivo da visita desta vez era observar o bar sob a ótica de Patrimônio Cultural Carioca. A missão, no entanto, inicialmente pareceu difícil de ser cumprida. Marcamos o encontro ao meio-dia para evitar filas e na primeira parte da visita, não conseguimos contato com o proprietário, Marcelo Novaes, que ainda não havia chegado, tampouco com alguém da liderança do bar que pudesse compartilhar as histórias que o grupo busca desvendar.
Por volta das 14h30min, já havíamos feito o básico: provamos o petisco participante do concurso (muito bom, por sinal — um mix de três sucessos de edições anteriores), tomamos alguns chopes gelados, comemos o “pastel de camarão de verdade” e o “infarto completo pequeno” (apelidado por nós de “infartinho”). Como não conseguimos descobrir as histórias do bar, já discutíamos a possibilidade de encerrar a visita e planejar um retorno em outra ocasião, fora do período do Comida di Buteco, e eis que Marcelo Novaes, o proprietário, apareceu!
Foi aí que a visita mudou completamente de rumo. Se até então era apenas uma típica visita de Comida di Buteco, após a chegada de Marcelo, tornou-se uma experiência genuinamente “Bartrimonnial”. Nosso grupo não tem o hábito de gravar conversas, justamente para evitar um tom de entrevista formal e permitir que histórias fluam naturalmente, como em um bate-papo de boteco. Depois, fazemos o exercício de recuperar da memória o que conseguimos registrar. No caso do Marcelo, esse desafio foi multiplicado, pois ele contou muitas histórias, muitas mesmo! Após o início da conversa, permanecemos no bar por quase quatro horas, e ele, entre uma visita e outra às demais mesas, voltava à nossa para relatar mais algum episódio.
Algumas de suas histórias já eram conhecidas por meio de pesquisas básicas sobre o bar. Outras, inéditas, envolviam o próprio estabelecimento e até aspectos de sua vida pessoal. Algumas, por envolverem figuras notórias da política nacional, optamos por não publicar aqui. Não que se trate de segredos capazes de abalar a República, mas certamente, mexeriam com as ilusões de quem acredita que figuras públicas não deveriam “virar a noite” bebendo. Para nosso grupo, essas histórias não desabonam em nada os envolvidos, pelo contrário, reforçam sua humanidade, independentemente de ocuparem cargos eletivos.
Marcelo nos contou, com detalhes, a clássica história da aquisição do bar. Ele mora na Rua Cachambi desde que nasceu, não na mesma casa, mas sempre na mesma rua. Viveu ali com os pais, depois com a esposa, após o casamento, e ainda em outra residência após o divórcio. Sua vida gira em torno da Rua Cachambi, onde também está localizado o Cachambeer.
Comentou sobre as transformações sociais que testemunhou ao longo das gerações, observando a mudança no estilo de vida das crianças da rua, antes voltadas para brincadeiras como bola e pipa, hoje mais conectadas aos celulares. Ressaltamos que essa mudança é generalizada e que o mundo, de fato, é outro. Se melhor ou pior, é difícil dizer. Para os mais velhos, certamente piorou; para os jovens, é impensável viver sem internet.
Em 2002, ele atuava em outros ramos, principalmente como vendedor, e sua relação com bares era exclusivamente como cliente. Tinha o hábito de decretar o início do fim de semana ao meio-dia das sextas-feiras, quando começava a beber. Mergulhador nas horas vagas, costumava levar peixes para petiscar com os amigos. Em uma dessas sextas, em janeiro de 2002, aconteceu a famosa compra do bar.
Antes de ser bar, o local era administrado por um senhor conhecido como “Baixinho” e funcionava desde 1937 como armazém, que alguns historiadores afirmam ser a origem dos botequins da forma que conhecemos hoje. Ou seja, o Cachambeer é mais um bar descendente direto de um antigo armazém.
Quando foi adquirido pelo Marcelo, o estabelecimento era uma pequena birosca, do tipo “pé-sujo”, ocupando apenas metade do espaço atual. Posteriormente, Marcelo adquiriu uma loja de colchões ao lado e dobrou o tamanho do bar. O proprietário era o Sr. Manoel, e o nome anterior do local era algo relacionado a “flor” — ele não se lembra exatamente. Foi Marcelo quem criou o nome "Cachambeer". Seu cardápio, aliás, demonstra seu apreço por trocadilhos e brincadeiras.
Naquela sexta-feira, já no fim da tarde, o Sr. Manoel queria fechar o bar, que ele mesmo operava com o apoio de uma cozinheira, a Sra. Raimunda, e um auxiliar. Marcelo, animado com os amigos, continuava pedindo “saideiras” e provocando o dono, dizendo que ele era “mão de vaca” por não contratar mais funcionários. O Sr. Manoel, irritado, disse que venderia o bar e iria aproveitar a aposentadoria em Itaipuaçu. Marcelo respondeu: “então bote um preço que eu compro”. O dono disse que ele quebraria o negócio em duas semanas, ao que Marcelo retrucou: “isso não é problema seu”. Assinou o cheque (sem preencher o valor no canhoto), continuou bebendo e foi para casa dormir, sem se lembrar do que havia feito.
No dia seguinte, acordou cedo, como de costume, cuidou de seus passarinhos, mas sentia um aperto no peito. Diz que hoje reconheceria como ansiedade. Ao refletir sobre o que poderia ter causado aquilo, teve um estalo: “comprei o bar do Sr. Manoel”! Conferiu o cheque e viu que havia deixado o valor em branco. Ao contar à esposa, ouviu um categórico “tá louco? Vai lá e desfaz essa besteira!”. Tentou ignorar o ocorrido, mas ao passar na frente do bar, foi chamado por Manoel: “vem cá, essa p*** agora é sua!”.
Inicialmente, achou que fosse brincadeira, mas o Sr. Manoel garantiu que o cheque seria depositado. Quando descobriu o valor, quase brigaram — Marcelo acusou o antigo dono de ter se aproveitado de sua condição alcoólica, enquanto Manoel o chamou de “moleque” sem palavra. Depois de acalmar os ânimos, renegociaram o valor, que ele considera justo (sem revelar quanto), e parcelaram em cinco vezes sem juros. A partir dali, pensou: “pelo menos vou beber a preço de custo!”.
Após seis meses de reforma — o bar só tinha um banheiro unissex, por exemplo — reabriu e operou no prejuízo por algum tempo, bancado por outros negócios de Marcelo. Ao começar a contratar funcionários, percebeu a responsabilidade de gerir vidas e famílias e passou a levar o negócio com mais seriedade. Logo, o bar começou a dar lucro.
Vascaíno apaixonado, declarou-se fã de Eurico Miranda, que frequentava o bar até pouco antes de falecer. Nosso grupo não entra em discussões futebolísticas, mas notamos que, embora Marcelo tenha um discurso inflamado — chamando flamenguistas de “vermes” —, ele mesmo reforça que gosta da polêmica, mas não leva isso às últimas consequências. Disse, inclusive, que adoraria receber Zico em seu bar.
Seu maior divulgador, no entanto, foi o prefeito Eduardo Paes, que, após uma visita ao final de um compromisso de campanha, tornou-se frequentador assíduo e atraiu muitos outros políticos e celebridades ao local. Marcelo diz ter criado laços de amizade com o prefeito, com quem compartilhou diversas histórias — algumas também contadas a nós entre um chope e outro.
Enfim, o Cachambeer é a cara de seu proprietário, um típico carioca suburbano e, apesar de ter apenas 23 anos com o atual nome, carrega tal personalidade legitimamente e merece amplamente o título de Patrimônio Cultural Carioca, seja por sua história enquanto antigo armazém, pela qualidade de seu cardápio e atendimento, pela curiosa aquisição por seu atual proprietário ou pelos ilustres frequentadores que se deslocam até o subúrbio carioca para conhecer este tradicional bar.
Presentes:
Mosquito e Nat
Diogo, Aline e Hugo Madeira
Lucena e Fátima Mafra
Antonio Velho
Em tempos de Comida di Buteco, ainda rolou uma peregrinação por mais três bares, onde experimentamos os petiscos e bebemos mais umas: o Spettinho Original, o Folia do Boi, e o Casarão da Julião, dando destaque para o atendimento nesse último. Inclusive inauguramos sua varanda no segundo andar e tivemos atenção especial dos proprietários. Desejamos sucesso em sua jornada!


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