Armazém São Thiago e os segredos não desvendados

Antes de adentrar efetivamente no relato da visita ao Armazém São Thiago, vale uma breve introdução sobre a decisão tomada pelo grupo em não agendar visita com o estabelecimento, a fim de conhecer um dia comum de operação, comer, beber, usar banheiros, pagar conta, chorar a saideira, como qualquer cliente que ali chegasse em um dia normal.


Como toda decisão, ela tem pontos positivos e negativos. Certamente contribui na espontaneidade, mas traz o risco de prejudicar o objetivo principal da visita, que é conhecer as histórias do bar, entendendo as razões para que ele tenha sido escolhido como Patrimônio Cultural Carioca.


Quando se trata do período do concurso Comida di Buteco, esse risco negativo se amplifica, pois os bares atuam freneticamente com a grande rotatividade de clientes ávidos por conhecer o petisco do concurso e partir para o próximo.


A visita ao Armazém São Thiago foi claramente prejudicada por essas questões. Havia grande expectativa com relação a esse bar centenário, herdeiro legítimo dos antigos armazéns, onde esperávamos ouvir muitas histórias.


Ao chegar, já começamos a tomar o primeiro susto ao não encontrar a placa azul de Patrimônio Cultural Carioca. Olhamos minuciosamente todo o estabelecimento, interna e externamente e nada da placa. Pedimos ajuda aos funcionários, ninguém tampouco sabia localizar a mesma. Chegamos até a pensar que o estabelecimento fora removido do rol do Patrimônio Cultural Carioca. Tivemos que apelar para uma busca na Internet, onde o mistério começou a ser desvendado. Pela foto na internet, identificamos a parede onde a placa estava fixada e constatamos que a mesma continuava lá, porém encoberta por uma faixa alusiva ao Concurso Comida di Buteco. Admiramos e frequentamos diversos bares participantes do Comida di Buteco, porém entendemos que não é saudável que uma faixa do concurso cubra a placa de Patrimônio Cultural Carioca e entendemos ter sido sim uma grande bola fora cometida pelo estabelecimento.


No início da visita conseguimos um pouco da atenção do sr. Valdemir, gerente da casa, que conversou brevemente conosco, disse que trabalha lá há 30 anos, ainda nos tempos do filho do fundador, sr. Jesus Pose Garcia Filho e do Sr. Gomez, sobrinho-neto do fundador cujo nome é até hoje atribuído informalmente ao bar, conhecido também por “bar do Gomes”.


Contou que o antigo comércio do tipo secos & molhados (nome genérico dos armazéns que vendiam de tudo um pouco) funcionava no local desde 1895, e o sr. Jesus Pose Garcia começou a trabalhar nele em 1907 como entregador, tendo arrendado a mercearia em 1917 e em 1919 concluído a compra e modificado o nome para Armazém São Thiago, em homenagem à Santiago de Compostela na Espanha. Com a chegada das maiores redes de supermercado nos anos 1970, os armazéns entraram em decadência e, para sobreviver, foram migrando para se tornar botequins. Benditos supermercados!


Como percebemos a aflição do sr. Valdemir com muito trabalho a fazer num dia de Comida di Buteco, não ocupamos mais o seu tempo. Sentimos falta de conhecer um pouco mais da história, principalmente com relação à sua indicação como Patrimônio Cultural Carioca. Quem sabe em uma outra oportunidade!


Seguimos a visita, além dos petiscos do Comida di Buteco, petiscamos os pratos “panceta do Gomez” e “Costela de porco à passarinho”.


O charme do Armazém São Thiago é realçado de forma única pela passagem do tradicional bonde de Santa Teresa bem em frente à sua fachada, criando uma cena que remete ao passado e encanta moradores e visitantes. Esse detalhe pitoresco combina perfeitamente com a atmosfera acolhedora do local, cuja decoração é composta por itens antigos originais, preservados ao longo das décadas, sem adições modernas ou aquisições posteriores. O encontro entre o bonde histórico e o ambiente autêntico do armazém reforça sua identidade como um verdadeiro ícone da memória carioca. Não desvendamos seus segredos como gostaríamos, mas obviamente isso em nada tira seu valor histórico e cultural.



Como a placa de Patrimônio Cultural Carioca estava encoberta, recorremos a uma caricatura para incluí-la.






Presentes:

Mosquito e Natália “Gonçalves”

Fatinha Mafra e Lucena

Sra. Églia, Aline, Diogo e Hugo Madeira

Gustavo Vilas Boas, Debora e Guigui

Jane e Luciano Morateli

Antonio Velho, que foi de bonde e chegou 3 horas depois


Sendo dia de Comida di Buteco, completamos a tarde visitando os bares Novooeste e Bar do Mineiro, nas proximidades.


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