Um domingo no Adonis: onde o chope é gelado e as histórias são quentes

Num belo domingo de sol carioca, lá foi o Bartrimonnio Carioca para mais uma de suas sagas: visitar o tradicional Bar Velho Adonis. E como já era de se esperar, a fama da casa se confirmou logo na chegada: uma bela fila na porta. Mas, com aquele jeitinho (e uma pitada de sorte), conseguimos uma ótima mesa para acomodar a turma.

A experiência começou como manda o figurino: comida excelente, com destaque absoluto para o croquete de polvo e o polvo com bacon simplesmente sensacional. O chope? Gelado, cremoso, com colarinho na medida exata. Daqueles que fazem a gente entender por que certos lugares viram patrimônio afetivo da cidade.

A casa, como sempre, mistura anônimos e ilustres. Naquele dia, cruzamos com o presidente do Salgueiro, André Vaz, e também com o renomado sambista Moacyr Luz, que, com a maior simpatia, tirou foto com a turma do Bartrimonnio.



Já sabíamos que o bar existe desde 1952, mas a visita ganhou outro nível quando entramos no universo do atual proprietário, João Paulo Campos. O João do Adonis é um espetáculo à parte, daqueles personagens que não só mantêm um bar, mas encarnam sua alma.

Com uma generosidade rara, ele nos levou ao mezanino, onde fica seu escritório e também seu refúgio. Ali, entre histórias deliciosas (algumas publicáveis, outras nem tanto), o tempo passou sem a gente perceber, sempre regado a muitos chopes e boas risadas.

João nos apresentou um verdadeiro acervo vivo: o estoque de prêmios conquistados pela casa, fotos antigas do fundador Antero “pai”, o dono da birosca original, do Antero “filho”, que tocou o bar até a venda em 2019, e do Sr. Arnaldo, figura histórica que começou como garçom e virou gestor.

O mezanino, aliás, tem outro charme: também é espaço de descanso. Com direito a armador de rede, mantém viva a tradição dos antigos donos. João, com orgulho, assume sua identidade híbrida: diz ser um cearense de Trás-os-Montes ou um português de Guaraciaba do Norte. E como bom nordestino, não abre mão de uma rede.

Em meio às histórias, um momento antológico:

 “Mariaaaaaa, traz uns chopes pra nós aqui!”

E os chopes vinham. Sempre vinham.

Entre um gole e outro, João compartilhou sua visão sobre os bares: para ele, cada botequim que fecha leva junto um pedaço da história da cidade. E foi exatamente esse pensamento que o levou a comprar o Adonis, segundo ele mesmo, numa decisão tomada “bêbado”. Algo que, curiosamente, já tínhamos ouvido em relato do Marcelo do Cachambeer. Fica o alerta: cuidado com decisões patrimoniais após alguns chopes!

Antes do Adonis, João já comandava outras casas, mas a aquisição inesperada exigiu até chamar o irmão para sociedade, pois não havia sequer recursos disponíveis no momento da compra.

Ele fez questão de agradecer nomes importantes na divulgação de seu trabalho, como Caio Barbosa e Marcos Bonder, além dos jornalistas Ancelmo Gois e Berenice Seara.

Outro ponto forte da conversa foi sua defesa apaixonada dos botequins como espaços democráticos. João contou que já trabalhou como chef em restaurantes renomados do Rio, onde muitas vezes o cliente é julgado pela aparência. No botequim, não: ali todos são bem-vindos.

E talvez sua maior missão seja exatamente essa: preservar a essência do Adonis. Um bar que não mudou, mas soube se reinventar. Um bar que, graças a ele, não virou farmácia, destino cada vez mais comum e triste para casas históricas.

A visita à chopeira foi um espetáculo à parte. Uma estrutura de bronze com cerca de 90 metros, mantida em temperatura ideal com gelo constantemente compactado pela equipe. Um verdadeiro altar do chope bem tirado.

E como toda boa história de botequim, não faltou um capítulo inusitado: João contou que a chopeira foi roubada durante o período de obras após a compra do bar. Ele mesmo saiu pelos ferros-velhos da região até encontrar quem havia comprado e precisou recomprá-la para trazê-la de volta ao seu lugar de direito.

Antes de nos despedirmos, ficou a recomendação: o famoso cozido de domingo. Esse, definitivamente, entra na lista para a próxima visita.

Entre goles, pratos memoráveis e histórias que dariam um livro, o Bartrimonnio Carioca encerra mais uma jornada, daquelas que reforçam a certeza de que os bares são muito mais do que pontos de encontro: são guardiões da alma da cidade.



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