Entre Chopes, Histórias e Austriacos Escondidos: Bartrimonnio invade o Bar Brasil!

Uma tarde daquelas que fazem jus ao nome do grupo. O Bartrimonnio Carioca aportou no tradicional Bar Brasil e foi recebido como manda o figurino: chope bem tirado, no padrão, com colarinho respeitando a liturgia, e petiscos que não deixam dúvida, como o joelho de porco, croquetes e as clássicas salsichas alemãs, que deram o tom da confraria.

Mas como de praxe, não foi só de comida e bebida que se fez a visita. Veio também um verdadeiro mergulho na história do lugar.

Antes de ser Bar Brasil, o templo se chamava Zepelin, fundado em 1907 por dois austríacos cujos nomes se perderam na espuma do tempo (e talvez de alguns chopes). Depois vieram Franz e Mike, esses já figuras conhecidas do pai do atual proprietário, o Gustavo. No meio dessa linhagem, também brilhou Dona Gertrudes, peça importante na engrenagem da casa.

Com a Segunda Guerra Mundial, tudo que remetia à Alemanha virou alvo, e o Zepelin acabou rebatizado como Bar Brasil. A revolta estudantil mirava mais o então Adolph (que virou Bar Luiz), mas respingou por ali também. O mesmo destino teve o antigo Bar Berlim, que virou Bar Lagoa. Tempos difíceis, decisões estratégicas.

E que fique claro, como fez questão de reforçar o próprio Gustavo: o Bar Brasil não é alemão. É carioca. Brasileiro. Mas, como todo bom carioca, sabe acolher influências, inclusive na cozinha.

A história da família do Gustavo também daria um roteiro de cinema: seu pai começou como faxineiro, passou pela copa, pelo salão, e quando os austríacos decidiram voltar para casa, juntou recursos e comprou o bar. Em um daqueles roteiros que só a vida escreve, os antigos donos pediram emprego no próprio bar para completar o tempo de aposentadoria. E foram atendidos.

Há também as histórias quase folclóricas, como a de que os austríacos teriam ficado entre 40 e 110 dias escondidos no andar de cima durante a guerra. Dependendo de quem conta, aumenta um pouquinho… ou bastante.

O Bar Brasil sempre funcionou com suas duas entradas por ruas diferentes, desafiando a lógica de não ser exatamente uma esquina. E segue assim até hoje.

Gustavo, à frente da casa, carrega o peso e o orgulho de manter vivo um patrimônio. Busca inovar, mas com cuidado para não descaracterizar. Pensa em soluções modernas, como um discreto vidro na fachada para proteger os clientes sem perder a identidade. Expandiu para a calçada da Rua Lavradio, aproveitando o clima da feirinha com segurança.

Com humildade, reconhece: o protagonista é o bar, não ele. E talvez seja exatamente por isso que a casa segue firme.

Falando em relíquias, a geladeira de madeira é um espetáculo à parte. Com mais de 60 anos no bar (e uma passagem anterior pelo Clube de Regatas do Flamengo antes de virar casaca), ganhou até uma engenhosa “gambiarra” com imã que captura as tampinhas de garrafa para que não caiam no chão, detalhe simples, mas genial.

E a lista de frequentadores? Um desfile de craques: Cartola, Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola (que sugeriu o Kassler à mineira com tutu, arroz e couve), Arlindo Cruz, Hamilton de Holanda, Toninho Gerais, Zé Ramalho, Gonzaguinha, mantendo a tradição herdada de Gonzagão.

Nos tempos antigos, a Lapa era outra história. Segundo Gustavo, quem chegava ali basicamente escolhia entre Bar Brasil e Capela, até porque não tinha muito para onde correr. O movimento caía tanto aos sábados à tarde que os garçons iam bater bola na Rua do Lavradio e interrompiam a partida se aparecesse um cliente. Cena impensável hoje.

E os garçons? Figuras lendárias. Mal-humorados, diretos, sem filtro. Chico atendia fumando charuto e não hesitava: “Tá achando ruim? Vai pro Capela!”. Outro tempo, outro mundo.

Teve até história trágica: Ludwig, garçom da casa, faleceu no salão após um infarto, episódio que também ficou marcado na memória do lugar.

Hoje os tempos são outros: as avaliações são pesadas e o bar não escapa das injustiças modernas: recebeu por exemplo uma avaliação nota 3 no Google onde a pessoa elogia comida, bebida e atendimento, mas penalizando a nota em função do entorno da Lapa. Coisas do nosso tempo.

Gustavo está no bar desde 2000 e viu de perto a revitalização da Lapa, que melhorou, mas ainda carrega estigmas. Tem gente que até hoje não pisa ali por preconceito com o bairro.

E como não poderia faltar, a visita à chopeira foi um capítulo à parte. Vimos os especialistas tirando chopes com tanta tranquilidade que pedimos autorização para tirar um chope também. Nossas tentativas (nem sempre bem-sucedidas) de tirar o chope perfeito mostraram que ali existe técnica, tradição e muito treino. A cultura do chope carioca foi moldada por casas como Bar Brasil, Bar Luiz e Bar Lagoa. A famosa medida de 300 ml veio da Alemanha e virou hábito sagrado no Rio. Hoje, a serpentina de 66 metros é de inox, mas já foi de cobre. Evolução sem perder a essência.

E assim, entre histórias, risadas, tentativas de chope e muita cultura de botequim, o Bartrimonnio Carioca fecha mais uma visita daquelas que ficam na memória.

Porque no fim das contas, não é só sobre beber, é sobre viver a história em cada gole.




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